Longe do calçadão de Ipanema, da Avenida Paulista ou dos corredores de Brasília, no interior de Minas Gerais, por algumas das cidades com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), desenha-se um retrato real do Brasil em 2019. Histórias de um país miserável e cheio de cicatrizes coloniais que as telenovelas não contam

Reportagem de Sofia Perpétua em Minas Gerais

Reportagem de Sofia Perpétua
em Minas Gerais

Terras de pedras preciosas, garimpeiros atrás de um sonho, mulheres que pescam em rios poluídos, trabalhadores rurais sem saber ler nem escrever, descendentes de negros escravizados que continuam a servir os descendentes de fazendeiros numa cozinha onde o chicote pendurado é violência presente, estes são alguns dos rostos da desigualdade social do interior do Brasil. Um crescimento exponencial da Igreja Evangélica, desinteresse em relação a tradições culturais, analfabetismo, desemprego, desmatamento, poluição, alcoolismo, violência doméstica, falta de oportunidades, desinteresse do poder público são alguns dos problemas mais comuns. No interior de Minas Gerais o tempo passa devagar, mas as pessoas envelhecem rápido, trabalhar no campo marca uma vida dura, de sacrifício, sem garantia de conseguir pôr um prato de comida na mesa ao fim do dia.

Longe das grandes metrópoles, é no interior que mais se sente o abandono social e económico, assim como as cicatrizes de um violento passado colonial. Quando os portugueses chegaram ao Brasil chacinaram os indígenas por suas terras ricas em ouro e pedras preciosas em Minas Gerais. No auge da exploração, a mão de obra escrava era essencial. A coroa portuguesa recolhia como imposto 20% da produção, o quinto, aumentando os impostos aquando da fuga da família real para o Rio de Janeiro, em 1808. Com o fim da escravidão, não houve uma transição eficaz para o trabalho assalariado. Hoje sentem-se as repercussões, reafirma-se a desigualdade. Os passos nos corredores de Brasília deixam pegadas nos caminhos de terra batida do interior, é terra a perder de vista, que vive de aguardar ser mais do que um esboço no mapa, ponto de fuga dos mais jovens numa busca de oportunidades na cidade grande porque para vidas vulneráveis o político é sempre pessoal. Esta é a realidade trabalhista no interior do Brasil numa altura em que o governo Bolsonaro fez aprovar no Congresso a Reforma da Previdência que desmonta a previdência pública, aumenta o tempo de contribuição, diminui o valor da aposentadoria.

MAPA MINAS GERAIS

O Expresso acompanhou o projeto itinerante “Na Tela do Cinema”, que leva cinema gratuito em praça pública às regiões mais carentes do Brasil. A iniciativa enquadra-se num esforço de democratização do acesso à sétima arte através da Lei do Incentivo à cultura do Ministério da Cidadania. Com o governo Bolsonaro, esta lei sofreu alterações significativas, colocando em causa projetos de divulgação cultural por todo o Brasil. Qualquer futuro é incerto. Este ano, a caravana percorreu cidades dos vales do Rio Doce, Mucuri e Jequitinhonha. Lugares pequenos, de igrejas antigas, praças à volta das quais a vida acontece. Estivemos em Águas Formosas, Caraí, Catuji, Capelinha, Rio Vermelho e Açucena, lugares remotos e pouco conhecidos por entre 858 municípios do estado de Minas Gerais. Este é o estado com mais municípios e o segundo mais populoso depois do estado de São Paulo, aqui moram 21 milhões de pessoas, é terra de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Dilma Rousseff, Lima Duarte, Alberto Santos Dumont, Chico Xavier, Aleijadinho e Pelé. O verde e o azul enchem os olhos, a terra é muitas vezes de vermelho sangue, há estradas de terra batida onde em marcha lenta os carros encaram dias de solavancos, a poeira cobre as plantas, pelos caminhos há animais mortos cercados por abutres que impedem o tráfego, raros são os carros sem frases da Bíblia ou referências a Jesus, são milhares de quilómetros, muitas horas.

I.“Fazer bem o serviço para não apanhar”

Os netos de escravos ainda servem os netos de fazendeiros

Em Rio Vermelho, o centro da cidade é dominado por uma igreja azul centenária, no café da praça há autocolantes contra a Reforma da Previdência que alguém colou, e que pelos cantos arranhados se nota que alguém tentou descolar. Maria do Rosário Santos, Dona Du, tem 73 anos e desde os 15 anos trabalha na fazenda onde um dia serviram os seus antepassados. Nasceu em 1946, mais de meio século após a abolição da escravatura no Brasil em 1888, da avó herdou a memória da vivência dos negros escravizados, da violência, da fome e das lágrimas. E ela repete as frases da avó, “fazer bem o serviço para não apanhar”. Só lhe sobrou um dente na boca, “extraí um dente uma vez e fiquei com medo”, apesar do patrão ser dentista e lhe ter sugerido colocar uma dentadura, ela diz que não quer.

Na cozinha onde trabalha está ainda hoje pendurado um chicote, antigo, gasto de uso, museu vivo, lá fora o tronco onde eram chicoteados os escravizados foi retirado há pouco tempo. Dona Du segura o chicote pendurado, descreve como as pessoas eram espancadas, do tronco lembra-se que estava muito liso, “como a superfície de uma garrafa”. Na sua infância não se lembra de brincar, ela cresceu com nove irmãos a saber trabalhar em plantações de café e a servir em casas de família. Dona Du olha pela janela onde amanhece o dia numa paisagem que os séculos conservam. Os seus patrões, donos da fazenda, pais, filhos e netos, entram e saem, aguardam o pequeno-almoço.

Policromógrafo hoje
Dona Du, 73 anos, na casa colonial onde serve desde os 15 anos de idade. Os seus antepassados foram um dia escravizados aqui

A fazenda é grande, guardada por cancelas de madeira esbranquiçada e estalada de sol de anos, a floresta sem deixar adivinhar outra casa no horizonte. No curral os animais de pasto esperam ração, há poços tapados, flores daninhas amarelas, vermelhas e azuis dão cor ao caminho de terra batida por onde passam os carros quando entram na fazenda. Entrar por este portão é atravessar um portal de uma máquina do tempo, o chão de madeira carcomida filtra a luz que chega ao porão, as tábuas e os móveis de outro século, a antiga senzala ainda está de pé, madeira que o tempo conserva.

II.“O pastor fala que é coisa do demónio”

A Igreja Evangélica e o Desprezo pelas Tradições

Na frente do edifício que foi um dia o único cinema de Águas Formosas, e que é hoje uma igreja evangélica, duas crianças entregam panfletos para a festa de logo à noite. “Vai ter canjica de milho!”, apregoam pelo meio dos cânticos evangélicos nos altifalantes. Um carro com o autocolante “Sérgio Moro, livrai-nos do mal” está estacionado. Um grupo de velhinhas atravessa a rua. “A minha religião é nada! A mim ninguém me engana fácil, não!”, diz uma idosa. “Tenho uma filha que é professora e que se converteu à religião evangélica, eu não consigo entender isso.” Algumas das músicas tradicionais da região com que cresceram, que aprenderam com os avós e bisavós, estão condenadas a desaparecer, não que tenham esquecido mas porque “o pastor fala que é coisa do demónio”.

Do outro lado da rua, a única pensão da cidade: Havay Palace Hotel. Pelos corredores decorados à anos 80 corre um caniche de raça chamado “Lulu”, nos móveis fotografias da dona da pensão, a senha de internet é a sua data de nascimento. Ela senta-se à porta e com cara de gato obeso que protege a sua casa chama pelas pessoas como quem enxota galinhas, assim como manifesta o apoio a Jair Bolsonaro, tem a cara do Presidente estampada na sua carrinha, e o apoio ao juiz Sérgio Moro nas portas. Nesta pensão é proibido ver a TV Globo, aqui só se pode assistir à TV Record, estação de televisão de Edir Macedo, líder evangélico do Reino de Deus que apoia Bolsonaro. O som da televisão mistura-se com a música evangélica que toca alto na rua, nesta pensão quem não acorda com os primeiros raios de sol acorda com o nome de Jesus. Pelo hotel há cartazes com frases do Dalai Lama, mensagens de paz e amor. Por detrás do balcão da receção, um colchão velho para o rececionista do turno da noite descansar, ele é proibido de cochilar nos sofás onde o caniche “Lulu” brinca o dia inteiro.

“Eu ajudei a eleger o Presidente Jair Bolsonaro! As coisas vão mudar, é deste Presidente que o Brasil precisa”

Águas Formosas, no nordeste de Minas Gerais, fica nas margens do rio Pampã. Iracilda desde pequena que gosta de lá pescar na luz do sol refratária de final de tarde. Pesca por entre um cheiro químico podre, azedo, da poluição industrial que atrai mosquitos. Hoje, nas margens do rio, há garrafas e embalagens de plástico por entre bosta de vaca e madeira queimada. Ela diz que antes era diferente.“Pobre tem que aprender a fazer tudo”, diz sem perder o sorriso. Ela pesca de vestido, sempre gostou de pescar assim. Iracilda diz que a poluição não incomoda. “Se cozer bem o peixe, ou fritar bem, pode comer!”

Policromógrafo hoje
Iracilda gosta de passar o final da tarde a pescar e não se deixa intimidar pela poluição do rio de Águas Formosas

Quando estudava na escola primária, Wilson Ferraz da Rocha começou a dar aulas porque um dia o professor faltou. Ele levantou-se, foi para a frente de todos e começou a ensinar. “Eu ensinava alta gramática, mas hoje ninguém sabe o que isso é, ninguém estuda, ninguém sabe fazer interpretação de texto.” Apesar disso, o octogenário tem esperança no futuro. “Eu ajudei a eleger o Presidente Jair Bolsonaro! As coisas vão mudar, é deste Presidente que o Brasil precisa”, Wilson descreve as recentes medidas de Bolsonaro como “uma puxadinha de orelhas, mas ele vai folgar e vai voltar ao normal”.

Erasmo Carlos da Silva é um artista que se assume como homossexual numa cidade pequena. “Eu senti a fumaça da ditadura, lembro-me de 1979, era muita discriminação. Durante o governo do PT a discriminação a homossexuais foi amenizada. Agora está a voltar, eu ouço nas ruas.” Erasmo foi criado pelos avós. “A minha mãe era prostituta, hoje é evangélica. Sabe como é, eles gostam de enterrar o passado. As mulheres serviam os coronéis da cidade, no que era chamado de zona boémia. Era uma coisa natural numa cidade pequena, elas trabalhavam de dia a servir numa casa de família, e de noite prostituíam-se. Minha mãe dizia que tinha medo que de manhã nós pedíssemos pão e ela não tivesse o que nos dar de comer.” A mãe de Erasmo nunca casou, dizia que não queria arranjar um homem que maltratasse os seus filhos. “Minha mãe foi uma prostituta muito respeitada, ela frequentava casas de família, estava integrada na sociedade, era discreta.”

Erasmo conta que quando alguma rapariga solteira e pobre ficava grávida, um sargento a obrigava a “subir para zona boémia”, de prostituição. As raparigas de famílias privilegiadas eram protegidas, as de famílias pobres, geralmente de trabalhadores rurais, não tinham proteção nenhuma.“Há rumores na cidade de homens que podem ser meu pai”, ri Erasmo. “Mas eu não quero saber, tive avós e tios, prefiro chamar pais a esses.”

Eurídes benze todos os que lhe batem à porta e pedem, não recebe dinheiro por isso, é dom que vem de família
Eurídes benze todos os que lhe batem à porta e pedem, não recebe dinheiro por isso, é dom que vem de família

Eurídes da Paz é benzedeira, herdou o dom da mãe, aprendeu as orações que afastam problemas mas as pessoas “tem que ter fé, ou não tem valor”. Os filhos e netos de quem era benzido pela sua mãe são agora benzidos por ela. Eles chegam sem marcar hora, ela vai recebendo todos, não cobra nada a ninguém. A benzedeira passou a vida a trabalhar na lavoura, conhece bem os caminhos da terra. “Aqui falta muito emprego e saúde. Às vezes as pessoas não conseguem ser atendidas por um médico, ou os remédios não fazem efeito, então eles pensam ‘vou lá que ela faz uma oração para mim e eu acho que vou melhorar’.” Muitos voltam para agradecer as graças. Eurídes é católica, “e não tenho intenção de me converter a nada, não”, diz antes que alguém tivesse tempo de lhe perguntar.

Maria do Carmo Vieira é professora de Português e pesquisadora de cultura popular, filha de pai folião e mãe batuqueira. Com a voz embargada, lamenta que em Águas Formosas as tradições estejam a cair no esquecimento. “A perda de cultura e identidade é triste”, diz Maria do Carmo. “A maioria dos jovens não sabe o que é cultura popular, um grupo de Batuque, a Folia de Reis. É grave, devia fazer parte do currículo das nossas escolas, porque é a nossa identidade cultural, a nossa história.” Para Maria do Carmo, o grande crescimento da Igreja Evangélica na região está relacionado com este desinteresse. “Tenho familiares que se converteram e não veem a cultura popular como saudável, acham que é pecado. Tem gente que até o som do toque de caixa acha que faz alusão a ritmos de macumba, então por isso eles acham que não devemos tocar. Mas são músicas e danças que passam de geração em geração de pais para filhos, a minha mãe e a minha avó são católicas e gostam demais de dançar e batucar, não tem nada a ver com religião.”

Antes de se apresentarem na praça de Águas Formosas, o grupo de Batuque está ansioso, preparam-se para fazer o que mais gostam. “É bom demais! De vez em quando a gente vai a casa de amigos à noite, reza o terço e depois passa a noite toda a tocar”, conta o carpinteiro Cleodi Gonçalves Viana enquanto ajeita o chapéu. “Tocamos até de madrugada, depois do terço cantamos, dançamos, bebemos um cafézinho e voltamos a cantar. Quando eu não canto fico triste”. É interrompido pelo irmão, Manuel Gonçalves Viana, que chega devagar como quem quer contar um segredo. “Sabe o que realmente dá energia à gente? Cachaça e conhaque”, ri.

“A gente precisa é do Lula de novo”

Não sabem se o batuque é tradição para continuar na região. “Cada vez há mais evangélicos, o que faz com que o nosso batuque vá acabando”, diz Cleodi. “Essa tal de Internet também tira o incentivo do povo mais jovem”, diz Joeline Neris Rodrigues, 55 anos, esposa de Cleodi. “Os jovens não sabem o que estão a perder. Um dia vão chegar na minha idade e não vão saber o que é isso”. Joeline diz que como profissão também pega na enxada, “mas no próximo ano vou-me aposentar”, sorri pela primeira vez. “O Bolsonaro não vai deixar isso não, ele vai passar a Reforma da Previdência” diz Cleodi. “A gente precisa é do Lula de novo”.

Joeline susteve a respiração, nos olhos o Brasil que trabalha a terra ao sol, uma vida sem tempo para aprender a ler ou a escrever, a enxada nas mãos calejadas, dias longos marcados no corpo, um horizonte que chega só até onde a vista alcança. Antes de começar a tocar, os batuqueiros chamam o filho de um amigo batuqueiro para que se junte a eles. O rapaz, acompanhado dos amigos, ri e recusa.

III.“Há regiões onde não há água, onde as pessoas realmente passam fome”

União Partidária por Condições Básicas de Sobrevivência

Andercila Pereira Ribeiro é agrónoma e não tem dificuldade em falar do que mudou nos últimos anos em Caraí. “Hoje temos acesso ao crédito rural, antes apenas os grandes produtores tinham esse acesso. Hoje podemos ter crédito para comprar uma casa, eletrodomésticos, não passamos fome graças ao Bolsa Família. Havia muita fome antes. Agora há acesso à informação, aos estudos em universidades federais, hoje temos médico e gente qualificada aqui.” Uma das principais atividades da região continua a ser o garimpo, que traz graves danos ao meio ambiente e à saúde, devido ao uso de mercúrio. As queimadas, o desmatamento e a consequente falta de água fazem também parte das preocupações ambientais da região.

“As pessoas fazem túneis com enxadas e picaretas. Recentemente, encontraram uma pedra com 20 quilos na nossa cidade, calculada mais ou menos em 70 milhões de dólares. As pedras vendem-se para outros países, na região não fica riqueza, a própria pessoa que encontra tem uma percentagem mínima. Há garimpo legal e ilegal”, diz Héber Gomes Neiva, o Váva, como é conhecido o recém-eleito prefeito de Caraí pelo PSB, Partido Socialista Brasileiro. “O coletivo é importante, se você governar para todos atinge cada um, se governar para cada um não atinge todos”, diz Váva. “As obras mais importantes não são as visíveis, eu posso construir estradas e calçadas e não mudar a vida das pessoas, o que muda a vida é a educação, e o investimento em educação só se vê a longo prazo.”

O prefeito frisa que Caraí foi esquecida por décadas e tem pouco emprego para os jovens, “na sua maioria homens que saem à procura de oportunidades e isso expõe uma condição de viúvas vivas, mulheres que ficam sós, a criar os filhos. O nosso maior desafio é tentar implantar condições básicas de sobrevivência. Há regiões onde não há água, onde as pessoas realmente passam fome. Precisamos de permitir que as pessoas sobrevivam com dignidade numa região pobre como a nossa”.

De duas em duas horas, Estelina acompanha o terço pela TV Canção Nova

Estelina Maria de Jesus Caldeira, 86 anos, vive e conversa no intervalo entre terços, rezou o das 10 e ao meio-dia vai começar outro, o terço é de duas em duas horas e as pessoas ligam para o estúdio para poder rezar junto com o padre. Quando chegar a hora, ela vai ligar a televisão na TV Canção Nova, e, de pé, segurando o terço com as duas mãos, vai repetir todas as palavras, uma por uma, rezar com companhia. Aqui na igreja de Caraí há hora para o terço dos homens, para o terço das mulheres e para o terço das famílias.

Noemiza Batista dos Santos assinou as paredes brancas da parte da frente da sua casa, assim como assina as suas peças de artesanato. O traço característico distinguiria a sua casa ao longe, não fosse esta a única casa numa imensidão de silêncio no horizonte da caatinga, a mata branca de Minas. São também brancas as paredes, assentes em rocha, comidas por humidade que os delicados traços cor de barro transformam numa obra de arte. Noemiza é reconhecida a nível nacional como uma das maiores artistas do estado de Minas Gerais, as suas peças estão trancadas num quarto, guarda a chave no bolso, com algumas até dorme junto. Idade? “De 10 acima e 70 abaixo eu tenho, eu não estudei não, quem sabe a minha idade é só quem sabe a leitura. A gente em criança trabalhava na roça, eu não sei de leitura, eu sei é fazer barro.” Sobre ser uma grande artista, os outros dizem que ela é, ela diz que não sabe se é, que “artista é quem faz trabalhos mais grã-finos”. Entre as suas peças há cobras, máquinas de costura, jarras de flores, cangaceiros, vacas, passarinhos, casinhas, mulheres artesãs rodeadas de peças, autorretratos de barro. Diz que sonha demais e que já foi muito namoradeira, ri com gosto. Mora isolada, para a encontrar é preciso conhecer bem as estradas de terra avermelhada que de tanta poeira dão outra cor à vegetação, tem que ser pessoa da sua família de afinidade ou sangue para conseguir aqui chegar.

Noemiza Batista dos Santos vive sozinha na zona rural de Caraí. É uma das artistas mais conhecidas do município e do estado de Minas Gerais

Ela gosta de comer pouco para se sentir “pequena e menininha” e para que não lhe pese a idade, mas tem sempre a sua garrafinha de cachaça, bebe quase dois litros por dia. “Eu gosto de pinga, melhor que comida”, diz que é por isso que só foi ao médico três vezes na vida. Enquanto conversa, senta-se num tapete amarelo à luz de fim da tarde, cruza as pernas, mistura lentamente o barro num prato alto, pega na peça em que está a trabalhar, molha o pincel branco e pinta fazendo girar as flores de barro nas mãos.

“Portugal? É para lá do Rio de Janeiro, não é?”, pergunta Vanja Alves da Silva. Dizem que tem 104 anos, ela não confirma porque não se lembra da idade e há muito perdeu a certidão de nascimento, neta de escravos, nunca aprendeu a ler ou a escrever, de berço condenada a ser testemunha e vítima de uma história que não teve forma de entender, mora num bairro considerado perigoso, um neto seu foi assassinado a tiro perto de casa, o homicídio é a principal causa de morte de homens negros no Brasil. A anciã teve dez irmãs e irmãos, “Papai dava uma enxada para cada um, todos trabalhávamos, os mais pequenos arrancavam mato, comíamos feijão, nem sempre havia arroz. Todos se ajoelhavam para rezar e agradecer.” Enche a voz de saudade quando se lembra dos momentos em que com os irmãos “dançava de roda no terreno, cantava muito, dava muita risada”.

Não esquece o dia em que o pai morreu. “Papai trabalhava na roça todo o dia com deus, bebendo café ou comendo farinha. Papai morreu novo, não aguentava tanto trabalho.” A família lavrava em terra rica em pedras preciosas, uma vez encontraram “uma pedra igual ao céu, o sol batia nela e tudo parecia dançar, o sol batia e ela ficava dançando na mão da gente”. Vanja coloca a mão em concha e consegue ver a pedra nesse vazio. Ao longo da vida, ela conheceu garimpeiros e a busca que conduz à ilusão das premonições. “Quando alguém sonha com um menino pequeno, é sinal que vai encontrar pedra azul. Quando achávamos uma pedra vendíamos para ricões da cidade grande.”

Vanja teve filhos mas nunca casou. “Eu nunca gostei de homem, eu ia lá gostar de homem?! Eles batem na gente. Se chegava em casa e não tinha comida, eles batiam na gente, se o feijão estivesse crú, aí que batiam muito. Hoje os homens se acham jantar no prato comem, se não acham, esperam, mas antes não era assim, antes eles eram doidos”. Mas já passou, o importante é que “tem que alegriciar, uma pessoa tem que passar alegria para outra”.

IV.“Na rua você encontra o bem e o mal, aprende a respeitar e a desrespeitar”

Terra de garimpo onde as drag queens caminham confiantes

Se alguém passar por Catuji, a senha da internet é ‘felicidade’, antes todos usavam a internet do único hotel da cidade, à beira da autoestrada BR-116, zona de passagem de autocarros de norte a sul do país. A BR-116 cobre 4482 km, atravessa dez estados, é um dos principais eixos rodoviários do Brasil, vai desde Fortaleza, no Norte, até à fronteira com o Uruguai, a Sul. Conhecida como rodovia da morte, é a rodovia federal onde se registam mais acidentes, atravessa longas extensões verdes, assim como favelas, paisagens de tijolo a nu, onde outdoors com sorridentes atores brancos tentam vender os mais variados produtos, tanto aos carros que passam como a quem nunca foi ao dentista e para quem um carro próprio nunca será mais do que um sonho por concretizar ou uma dívida para a vida, vendem-se sonhos burgueses em bairros degradados. Estendem-se os problemas ambientais por aqui, o desmatamento e consequente assoreamento e secagem das nascentes, quando se desmata chove menos, o solo seca, alguns trechos dos rios ao secar deixam água parada, lixo, surgem mosquitos, potenciais focos de dengue. Os surtos de dengue são muito comuns na região.

Num restaurante à beira da estrada passam automobilistas, camionistas, vendedores ambulantes, andarilhos e quem mais tenta a sorte a pé pelo mundo. A figura do andarilho faz parte do imaginário brasileiro, são personagens que caminham sem destino por este país de dimensão continental. Cláudio Menezes é andarilho, sentou-se à porta, pediu algumas latas de refrigerante vazias aos empregados de mesa, tirou um canivete e uma tesoura e começou a cortar e moldar o alumínio, hoje está a fazer uma pequena panela de pressão. Cláudio perdeu conta de quantos anos tem, nasceu no interior de São Paulo e seguiu estrada há quase duas décadas, depois de um divórcio. “Já fui ao Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, todos têm fronteira com o Brasil.” Diz que conhece “as BR”, autoestradas do Brasil, como a palma da sua mão.“A minha rotina é andar andando. Ando para lá e para cá, trabalho com sofás, capino quintais, sou pedreiro, faço qualquer coisa.”

Cláudio saiu pelo mundo porque “queria conhecer pessoas diferentes, culturas diferentes, paisagens diferentes. Nossa senhora, é bom demais, você vive a vida e não deve nada a ninguém, só a deus”.Para este andarilho, o melhor lugar do mundo é Fortaleza, “altas praias e dunas para correr. Mas 45 graus, você aguenta? Descasca a pele das orelhas”, coça-se ao lembrar a pele queimada. “Na rua você encontra o bem e o mal, aprende a respeitar e a desrespeitar, tem que conhecer o lado certo se não quer correr para o lado errado.”

O Português é uma lanchonete na praça principal da cidade e não serve um único prato típico português: “Aqui, é hambúrgueres e batata frita.” O dono é português, o único imigrante a viver em Catuji e, até hoje, depois de quase uma década, é a primeira vez que vê outro português por aqui. Emanuel Alexandre de Sousa está em Catuji fugido da crise que se instalou em Portugal em 2010. A esposa é daqui, conheceu-a num restaurante em Angra do Heroísmo, ilha Terceira. Desde que teve uma filha que pensa em regressar a Portugal, “há mais e melhor saúde, educação, segurança, Portugal pode oferecer isso, o Brasil dificilmente. A minha mulher é brasileira e tem ainda mais vontade do que eu de ir embora, eu é que estou a segurar”. Ficou sete anos sem ir a Portugal, “é muito caro viajar daqui”, mas é filho único e a mãe quer muito que ele volte. Ri ao lembrar-se que na sua ilha o máximo que conduzia “era 18 km, aqui é 500, 600, 1000 e é perto”. Diz que talvez abra O Brasileiro quando voltar para os Açores e que vai servir caipirinhas e açaí.

Imagem retirada de um dos vários vídeos de Yuri no You Tube
Imagem retirada de um dos vários vídeos de Yuri no You Tube

Yuri Marcarini, ou a conhecida Sarah Marcarini, drag queen influencer no YouTube, tem 17 anos e por onde ela passa a rua pára. Alta, magra, maquilhada, confiante, na moda, sempre acompanhada de amigos, sonha morar na cidade grande, viver em São Paulo e continuar a ser YouTuber. “Aqui em Catuji não há preconceito, somos muitos e estamos juntos. Toda a gente nos conhece desde criança e nos respeita”, diz Yuri. “Talvez se não fossemos tantos as coisas não fossem assim, sei que noutras regiões não é assim”.

Maria Gonçalves Branco, 83 anos, mora na beira da BR 116, numa casinha de barro, à porta um jardim de flores na brisa da autoestrada. Ela fala num português que ora engole, ora acrescenta sílabas, não aprendeu a ler ou a escrever, e esse é o único ressentimento que tem na vida. “A minha infância foi de trabalho, eu não tive escola, só os fazendeiros podiam colocar os filhos na escola. A minha infância foi com o cabo da enxada plantando feijão, arroz, olhando bicho, colhendo algodão, cuidando o tacho para fazer rapadura”, diz Maria. “Os meus netos, graças a deus, eu ponho as mãos para o céu, eles estão na escola. Eu bato palmas e agradeço a deus porque os meus filhos eu criei na maior dificuldade.” Fala ao som dos camiões que passam na BR, na luz do fim de tarde que entra pela porta da sua sala sem janelas. Mudou-se para Catuji com o marido, garimpeiro. As memórias de pedras preciosas avivam-lhe os olhos. “Eu vi algumas pedras preciosas pequenas, a águas-marinhas é muito bonita, meu marido encontrava e trazia para eu ver. Conheço a águas-marinhas, o berilo, cristal, mulião, alexandrita, turmalina, até um diamante eu já vi”, diz Maria.

Quando o marido encontrava alguma pedra, “tirava a parte do sócio, a parte do fazendeiro, vendia o que sobrava e comprava alguma coisa”. Apesar de ser mulher de garimpeiro, nunca teve uma joia de pedra de garimpo. Se pudesse, ela queria muito ter uma ametista. “Tínhamos sonhos de encontrar uma pedra grande e fazer uma casa grande, a gente nunca para de sonhar mas só deus sabe se a gente merece.” Maria lembra-se bem do dia em que um presidente visitou Catuji. Ouviu na televisão que o Presidente Lula ia passar na BR, à porta de sua casa. “De São Paulo para cá toda a gente esperava a passagem dele na beira da estrada, estávamos muito ansiosos. Minha filha foi e correu para tirar foto com ele. Os outros passaram de avião, passavam voando por cima! Presidente Lula veio pela estrada, parou aqui!”, diz Maria. Sobre o Brasil, Maria acha que “as pessoas têm que ter mais conhecimento porque quem não sabe é tapete, para quem sabe mais passar por cima. Eu acho que o Presidente Bolsonaro acha que a gente aqui é tudo igual, nasceu para ser pobre, e o mais pobre o rico pisa. Quem ganha bem ao fim do mês pode ter tudo, quem não ganha o suficiente não tem nada. E às vezes são os mais pobres que ajudam os ainda mais pobres a sobreviver. O Brasil é muito bonito, mas é dividido e não acolhe a todos por igual, não. No meu pensar, eu não sei, mas no meu pensar, eu acho que para a frente vai ser pior”. No Brasil o voto é obrigatório até aos 65 anos, depois dessa idade o voto é facultativo e quem não vota não é obrigado a pagar multa, razão pela qual muitos idosos acreditam não ser preciso votar. A multa para quem não vota não chega a um euro.“Se meus filhos votaram no Bolsonaro? Eles não falam mas eu sei que votaram.”

Jerónimo dentro da casa que está a construir

Jerónimo Francisco de Oliveira é boiadeiro de amor e vocação, arte que aprendeu com o pai, boiadeiro de tradição. “É um dom que eu sempre tive, mexer com o gado”, diz. Segura uma Bíblia desgastada com a leitura dos anos, companheira no sertão.“O boiadeiro tem que saber boiar”, Jerónimo tem voz forte, sempre chamou as vacas com “autoridade e amor”. O aboiar é o jeito de chamar o gado, de liderar a rês, de levar os animais pelas pastagens ou para o curral, é um canto típico da região nordeste do Brasil, cada vaqueiro tem o seu ritmo, melodia própria e jeito de se impor. Dizem que o aboio é herança árabe, que veio da Península Ibérica. Jerónimo sempre tratou o gado com amor, quando matavam alguma vaca ele nem ia trabalhar, “ficava com grande desgosto” e ainda hoje não é capaz de comer carne de vaca.

V.“Está vendo o trabalhador rural? A gente é quem alimenta todo o Brasil”

As grandes fazendas agropecuárias e os pequenos negócios do país profundo

Capelinha fica no Vale do Jequitinhonha, o que dá à cidade um clima frio que lhe vale a alcunha de ‘suíça brasileira’. Aqui, os indígenas foram perseguidos para abrir espaço para fazendas agropecuárias, no século XIX. Adão Ave da Cruz, 61 anos, só fala quando tem a certeza que não está a falar com a TV Globo. Hoje acordou cedo, é dia de mercado, ele veio da comunidade de Bateria do Riacho e acabou de comprar um saco de milho. “Está vendo o trabalhador rural? A gente é quem alimenta todo o Brasil”, diz Adão. “Se eles parassem de roubar, nós não precisávamos da Reforma da Previdência, o Brasil é rico em tudo! O trabalhador rural tem que ser protegido pelas leis, mas as leis não estão a ser cumpridas, estão atrapalhando a vida de quem põe a comida na mesa do cidadão.”

Elza Aparecida Sampaio passou a adolescência a trabalhar na terra de sol a sol, sem oportunidade de estudar ou parar para pensar na vida. Hoje, aos 44 anos, é artesã e uma das artistas mais conhecidas da região. “A gente aprendeu a ter amor a este lugar, minha mãe me ensinou a buscar a felicidade de acordo com os recursos que a gente tem e o que eu aprendi com minha mãe é tudo o que eu dou conta de falar”, diz Elza, que nem acredita quando se vê no seu “galpão de trabalho com arte”, ri baixinho, desfaz-se em agradecimentos. Através da empresa pública EMATER, Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural, ela encontrou uma oportunidade, foi “uma luzinha no fundo do túnel”. O programa visava o adquirir de competências por parte dos trabalhadores rurais para que tivessem alternativas de trabalho, e até para permitir que as mulheres possam passar mais tempo com os filhos ao não ter que trabalhar o dia todo no campo. Elza deseja no futuro conseguir formar um grupo, ter gente com quem trabalhe lado a lado, abrir uma lojinha.

Açucena é uma cidade onde tudo se passa e vive pela praça onde vizinhos se cruzam, senhoras se sentam à sombra, crianças sobem às árvores, todos aguardando alguma coisa que chegue de algum lugar. Aparecida Onório Martins gosta de passear depois do almoço. Apresenta a sua cidade com gosto, fala das festas de Nossa Senhora da Piedade e da Folia dos Reis. O marido partiu para longe, 660 km de estrada, foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte, em Açucena não há trabalho e eles têm dois filhos para criar, a mais velha quer ser jornalista. No mês passado, ele disse que não ia mais voltar, ela tentou o suicídio mas agora está bem, tornou-se evangélica. Aparecida tem gosto em ajudar e lamenta não ter partilhado um prato de galinha caipira e angu de banana com alguém que apenas conheceu depois do almoço.

Eva Moreira Bento tem 84 anos, mas não sabe ao certo em que dia nasceu. Hoje seguiu a sua rotina, acordou cedo, foi ao culto evangélico e veio passear na praça. Ficou feliz por ver caras novas. Já perdeu todos os dentes e parentes, cabelo branco apanhado, vestido às flores, viveu a plantar feijão e arroz, criou filhos, cuidou do marido. Todos os que passam por ela a cumprimentam. “Eu era católica, depois aceitei Jesus e fiquei evangélica, eu sou amiga de todos da Igreja Católica mas só vou na Assembleia de Deus.” Eva conta que agora consegue perceber o que o pastor diz, antigamente tinha dificuldade em perceber o que padre dizia durante a homilia. “O pastor prega diferente, o padre explica, explica, mas o povo não entende, ele só prega dentro da Bíblia, aí eu troquei de Igreja.” O dízimo à Igreja Evangélica, um bem necessário: “Pago dízimo, é o primeiro pagamento que eu faço assim que recebo a reforma e deus não deixa faltar nada em minha casa. Se você não pagar, tudo o que você ama o diabo vai destruir, você pagando o dízimo deus nunca desampara.”

A Vó Ilda ajusta a touca antes de entrar na cozinha que construiu suando cada tijolo. Abre às 4h40 da manhã, pela fresquinha. É no restaurante Cantinho da Vó Ilda que os camionistas e viajantes querem parar. Aos 51 anos, Vó Ilda sente-se realizada, o seu restaurante de beira de estrada tornou-se tão popular que lhe permitiu por toda a família a trabalhar consigo. É por isso que desde então ela não perde o sorriso, dança, conversa, canta, cozinha, realizada com a concretização de um desejo antigo: ser dona do seu próprio negócio, do seu tempo e destino. Começou com um contentor, servia só cafézinho, as mesas e as cadeiras de plástico pagas às prestações, foi crescendo, tratando das licenças, hoje é referência na região. Trabalha com a sua filha, Diane, e com a netinha Emanuelle de seis anos a passar da saia da mãe para a saia da avó. Ela desce a sua beira da estrada e está em casa, rodeada de vegetação exuberante, um riacho ao fundo, uma brisa quente que passa. “É uma sensação boa. É deus que leva a gente para a frente!” Vó Ilda tem camisa vermelha e avental preto, na cabeça a touca branca com desenhos de pimentas malaguetas. Este é o uniforme que escolheu para si. “Os camionistas até brigam entre eles para conseguir estacionar! Eles pedem “vaca atolada, galinha caipira, arroz, feijão, ragu, taioba!” ri de riso cheio. Rangu é um ensopado de carne com legumes, taioba vem do tupi e aqui é uma forma de dizer inhame. Para quem vem de longe e não conhece estes pratos, Vó Ilda solta ‘uai’, e no impulso da interjeição de surpresa mineira vai até à cozinha e traz tudo de bom que se pode provar.


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