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ESPECIAL: FICA NA MINHA TERRA


O ponto mais longe possível

A Comunidade Ucraniana em Portugal



Os baixos salários e a instabilidade laboral do pós-União Soviética empurraram-nos, na viragem do milénio, para a outra ponta da Europa. Apesar de terem níveis de formação e educação superiores, aceitaram trabalhos menos qualificados. Ajudaram a erguer um país que atravessava o período áureo do desenvolvimento de infraestruturas. Para tantos, era para ser temporário. Mas acabaram por ficar. Passadas mais de duas décadas, a invasão da terra-mãe obriga uma nova leva de ucranianos a procurar Portugal. Mais uma vez, com a esperança de que seja temporário. Mas as guerras raramente trazem aquilo que se espera.



I

"Em direção à escuridão"



O tempo da brincadeira acabou. O som de um sino - não o da típica campainha da escola - ecoa pelos corredores. A professora abana-o, à porta das salas de aula, chamando os alunos para dentro. As crianças, que corriam e conversavam animadas, assumem de imediato o sentido daquele tinido. É um som que, aqui, significa futuro. Entram, sentam-se às carteiras e fixam o quadro, onde está escrito o dia e o local da lição. "Lisboa, fevereiro de 2025."

Há três anos, o som que ouviam, pela primeira vez, era outro, também sinal do final de um tempo – mas não como aqui. Nesse som, não havia qualquer significado de futuro. Só o contrário. A ausência dele.

"Ouvi explosões ao pé de casa. Foi assim que soube que a guerra tinha começado." Larysa Yarushko emociona-se quando começa a falar sobre aquele dia. A data de 24 de fevereiro de 2022 está marcada como que a ferro em brasa na memória. A invasão da Ucrânia pela Rússia.

"Antes do início da guerra, eu morava na Ucrânia", conta Larysa. "Sou da região de Dnipropetrovsk. Vivia com a minha família." O marido e os dois filhos, um casal de gémeos, na altura com 9 anos. Professora de profissão, tinha "um pequeno jardim de infância privado". Naquele dia, os alunos não apareceram.

"Dizia-se que ninguém devia sair de casa, porque era muito perigoso. Que as crianças não deviam ir à escola e tudo mais. No meu jardim de infância, as crianças deixaram logo de ir", lembra. "Uma educadora que trabalhava comigo abandonou imediatamente o país."

"Eu aguentei mais algum tempo. Pensei que tudo ia melhorar, mas, infelizmente, isso não aconteceu." Também Larysa acabaria por sair do país com os dois filhos. Deixou o marido para trás. "Os homens não podem atravessar a fronteira. Ele é forçado a ficar lá."

A Polónia foi a primeira paragem. "Fomos para Varsóvia, de autocarro. Não havia iluminação nas estradas, nas ruas, em lado nenhum. Saímos em direção à escuridão."


II

O sol



Aquilo em que Mykola Shymonyak primeiro reparou, quando entrou em Portugal, foi o sol. "Vi aquelas montanhas, todas queimadas pelo sol, já no final do verão."

"Eu até disse: "Pá, não sei para onde é que nós vamos!"", brinca.

A viagem foi feita numa Mercedes 906 das antigas. "Dormíamos dentro da carrinha, comíamos lá fora." Acompanhado de dois amigos, atravessou a Europa de uma ponta à outra, sobre rodas, em cinco dias. "Começámos pela Polónia, depois Alemanha, França, Espanha, (...) e entrámos pelo Algarve."

Acabadinhos de chegar a Albufeira, foram recebidos pelo irmão de um dos amigos do grupo, que já estava em Portugal. Era padeiro. "Trouxe-nos pão. Pela primeira vez, provámos pão português. E uma garrafa de vinho."

"Depois de cinco dias na estrada, já não tínhamos muito para comer (...), então foi uma coisa assim…", recorda, sem encontrar as palavras para descrever a sensação.

A chegada de Mykola, hoje com 47 anos, a território português acontece numa época drasticamente diferente. "Vai fazer, este ano, 25 anos", diz. Faz parte da primeira vaga de imigração ucraniana do Portugal do início do milénio. Uma imigração essencialmente masculina. E jovem.

"Os primeiros ucranianos que começaram a chegar vieram trabalhar na construção civil, porque houve uma oportunidade: Portugal preparava-se, naquela altura, para o campeonato 2004 europeu", explica Pavlo Sadokha, presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, também ele chegado ao país naquele ano de 2000.

O grande pico da vinda de ucranianos foi em 2001. Mais de 80% invocavam razões económicas para imigrar. A desvalorização dos salários na Ucrânia no período pós-União Soviética, as taxas de inflação elevadas e a instabilidade do emprego eram as explicações apresentadas para esta população tão jovem e qualificada - a maioria tinha um nível de educação superior ao da população portuguesa - procurar Portugal como destino.

"Quando viemos para Portugal - e posso dizer isto sobre a maioria dos ucranianos -, ninguém emigrou para viver. Naquela altura, todos vieram só para resolver problemas económicos e depois regressar [à Ucrânia]", expõe Pavlo Sadokha.

Foi também o caso de Mykola. "A ideia inicial era ficar um ano, arranjar algumas coisas, dinheiro, e voltar. Mas, entretanto, fiquei."

É originário de uma pequena cidade a 14 quilómetros da fronteira com a Polónia, com 15 mil habitantes, onde, diz, só havia um grande quartel (a União Soviética acabara com o convento que anteriormente ali existia). Formou-se em computação. Entretanto, teve de ir para a tropa e, quando terminou o serviço militar, começou a trabalhar numa oficina de reparação de carros. "Pintura e chapa", precisa. "Estive lá dois anos e depois decidi ir à procura de alguma coisa diferente." É aí que surge Portugal.

Na altura, o cunhado de Mykola estava já emigrado em terras lusas há alguns meses e deu-lhe o impulso para se aventurar também.

Quando saiu da Ucrânia, deixou para trás a mãe, o pai, a irmã e o sobrinho de seis anos. Seis meses depois, o pai morreu num acidente. Na altura, a mais de 3500 quilómetros de distância, Mykola não pôde regressar a tempo. "Nem consegui ir ao funeral." Só passados dois anos em Portugal conseguiria voltar, pela primeira vez, à Ucrânia e ver a família.


III

"Foi a primeira vez que vi o oceano"



Larysa, hoje com 39 anos, não vê o pai há cinco. Ele, tal como o marido dela, ficou na Ucrânia. Tem 60 anos, idade que já não serve para ser recrutado para a linha da frente e combater pelas tropas do país. Mas recusa-se a deixar a terra onde nasceu.

"Ele podia vir, mas já está habituado a viver onde está. Não quer mudar-se", explica Larysa. "É melhor para ele viver na casa dele do que começar de novo noutro lado." Mesmo que sob o risco constante dessa casa deixar de existir. Um risco que, com dois filhos a seu encargo, Larysa não se atreveu a correr.

A primeira noite, quando chegaram à Polónia, foi passada numa estação de autocarros, onde apenas havia colchões estendidos no chão, para as crianças dormirem.

"No dia a seguir, fomos para o aeroporto e voámos para Portugal." Diz que escolheu o país por ser "quente". Procurou informações na internet e percebeu que o Estado português estava "a ajudar muito os ucranianos". Havia "bilhetes sociais" de voos para Portugal a partir de Varsóvia. Não tinha familiares nem conhecidos na terra para onde ia. Nem nunca lá tinha estado. "Foi muito assustador", confessa.

Entrou no país com um pedido de proteção temporária. Tal como dezenas de milhares de ucranianos - essencialmente, mulheres e crianças - na mesma situação. Só em 2024, aponta o último relatório da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), foram concedidas 1.244 autorizações de residência provisórias a estrangeiros com Estatuto de Refugiado e de Proteção Subsidiária. No total, são 61.242 os beneficiários do regime de proteção temporária em Portugal.

Ao abrigo deste regime, os cidadãos ucranianos recebem título de residência, número de identificação fiscal e de segurança social, assim como a integração no Serviço Nacional de Saúde. Em muitos casos, foi também oferecido apoio ao nível do alojamento e da alimentação.

Dos mais de 79 mil ucranianos que vivem em Portugal, pelo menos 60 mil têm estatuto de proteção temporária, assegura o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal. De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, Portugal está entre os 20 países que mais acolheram ucranianos após a guerra.

O conflito na Ucrânia causou a maior crise de deslocação populacional na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com quase um terço da população a ser forçada a fugir. No final de outubro de 2024, 4,2 milhões de pessoas fugidas da Ucrânia beneficiavam de proteção temporária na União Europeia (UE), segundo o Tribunal de Contas Europeu. Se lhes juntarmos os ucranianos exilados fora da UE, o total sobe para 6,74 milhões. Além disso, apontam as Nações Unidas, há 3,7 milhões de pessoas deslocadas dentro do próprio país.

Uma realidade que se estende a outros conflitos e outras geografias. Seja em África ou no Médio Oriente, as guerras têm aumentado o fenómeno da migração internacional. Os últimos dados da Organização Mundial para as Migrações indicam a existência de 281 milhões de migrantes em todo o mundo.

"Houve pessoas que vieram que o que queriam era fugir para o mais longe da guerra", aponta Pavlo Sadokha. "Simplesmente queriam ir para o mais longe das bombas, dos mísseis, daquele cenário."

"O que queriam era fugir para o mais longe da guerra. Simplesmente, ir para o mais longe das bombas, dos mísseis, daquele cenário."

Pedro Góis, investigador da Universidade de Coimbra e diretor científico do Observatório das Migrações, corrobora a ideia. Além das vantagens do "clima ameno" e da existência de trabalho - ainda que, muitas vezes, mal pago - a "ideia de estar o mais longe possível" terá tido uma forte influência na escolha de Portugal. O "fator psicológico" é inegável.

"Senti-me muito aliviada e segura", relata Larysa, sobre o momento em que, pela primeira vez, pôs os pés em Portugal. À espera dela e dos filhos, no aeroporto, estavam um representante municipal e um intérprete. Foram encaminhados para um albergue, na Costa da Caparica. "Não muito longe do oceano", conta. "Fiquei muito impressionada. Foi a primeira vez que o vi. O oceano."


IV

"Se a Ucrânia tivesse mar do outro lado, éramos felizes como Portugal"



Há uma prancha de surf pendurada na parede. É o único objeto que destoa por entre as máquinas que enchem a oficina de Mykola Shymonyak. Começou a surfar durante a pandemia, quando "não havia nada para fazer." "A polícia só chegava à praia às 9h00, então nós íamos às 7h00 e, quando eles estavam a entrar, íamos embora", conta, divertido.

A paixão pelo desporto aquático é recente, mas o amor pelo oceano que banha Portugal é antigo. E não é de estranhar que desejasse ter também a água como vizinha, em vez de outros, na terra natal. "Se a Ucrânia tivesse mar daquele lado, nós éramos felizes como Portugal. Garanto."

A oficina de Mykola, guardada por dois fiéis caninos - que ladram ferozmente à primeira vista, mas tornam-se dóceis ao perceberem que podem confiar no visitante - fica algures no meio de Alcabideche, concelho de Cascais. Cá fora, há uma série de autocaravanas, diferentes tipos e formatos. Lá dentro, os instrumentos necessários para "quitá-las" com todas as comodidades - canalização, camas, armários, frigoríficos.

"Quando tinha uns seis anos, morava para aí a 90 quilómetros da casa da minha avó. Nós fazíamos sempre uma viagem por mês até lá e andávamos nuns carros assim pequeninos", recorda Mykola. "Eu, como tinha de acordar cedo, dizia ao meu pai: "Temos de comprar uma coisa dessas - uma autocaravana - e montar aqui um sofá para eu dormir!""

Quarenta anos depois e o sonho do pequeno Mykola, diz, "quase ficou concretizado". Hoje ganha a vida a construir para outros aquilo que idealizava ter em criança. "Faço transformações nos carros: têm cama, têm casa de banho, têm tudo!"

Na oficina de autocaravanas de que é dono, Mykola trabalha com mais um ucraniano - e também com uma portuguesa, na parte do escritório e atendimento ao público. O processo para aqui chegar, contudo, não foi linear.

Explica que, quando veio para Portugal, começou por arranjar trabalho numa oficina de pintura, depois noutra de chapa. Mas, nas empresas onde estava, não lhe davam os documentos necessários para tratar dessa regularização.

Grande parte da comunidade imigrante ucraniana, nos anos 2000, chegava com um visto turístico e começava a trabalhar. Mais de 60%, como Mykola, arranjava empregos não-qualificados, apesar das qualificações superiores. Depois do visto expirar, o receio de permanecer ilegalmente no país era muito - sobretudo porque a maioria desconhecia o funcionamento do sistema fiscal e de segurança social em Portugal.

"Quase todos chegaram legalmente", assinala o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, mas os vistos rapidamente caducavam. Pavlo Sadokha lembra, por isso, um momento que, então recém-chegado ao país, o marcou.

"O Presidente Jorge Sampaio veio a um encontro com ucranianos, na nossa igreja ucraniana em Lisboa", rememora. Como, na altura, ainda "não sabia bem falar português", Pavlo pediu ao padre da igreja que lhe traduzisse a declaração que lhes estava a ser dirigida pelo Chefe de Estado.

"E ele disse: "Sintam-se seguros, ninguém os vai empurrar para fora do país. Sejam bem-vindos"." Palavras que não esquece. "Eu nasci na União Soviética, onde os direitos humanos eram quebrados sempre. E, aqui, o presidente de um país, apesar de nós estarmos cá ilegais, dizia: "Vocês estão seguros, podem trabalhar, podem viver cá.""

"Nasci na União Soviética, onde os direitos humanos eram quebrados. Aqui, o presidente de um país, apesar de estarmos ilegais, dizia: 'Vocês estão seguros, podem trabalhar, podem viver cá'."

Foi o primeiro passo para a inclusão daquela que viria a ser tida como uma das comunidades imigrantes melhor integradas no país. Os homens ucranianos que haviam chegado sozinhos começaram a reagrupar as famílias, a trazer as mulheres e os filhos da Ucrânia para Portugal, e a pensar realmente em viver cá.

Mykola, solteiro quando veio para Portugal, ainda teve "algumas namoradas portuguesas". "Mas elas diziam que não acreditavam muito, porque um dia eu ia embora, e não queriam nada assim a sério", ri. Acabou por conhecer uma ucraniana, através da internet. "Falávamos muito por Skype." Depois convidou-a a vir para Portugal, juntar-se a ele. Tiveram um filho, agora já com 12 anos. E a família aqui se estabeleceu. Vivem em Carcavelos, onde Mykola comprou casa. "Já tenho mais vida em Portugal do que a minha vida consciente na Ucrânia."

Uma comunidade "invisível"

Apesar das dificuldades que Portugal passa - e que são para todos, principalmente económicas -, as pessoas gostaram de viver cá", repara Pavlo Sadokha. "Encontraram uma segunda casa, uma segunda pátria."

"A primeira comunidade ucraniana, que chegou há 25 anos, está tão bem integrada no país que não damos por ela", assinala o investigador Pedro Góis. "A sua característica principal é a invisibilidade."

"Só reparamos que eles cá estão quando vemos que têm nomes eslavos e que nos são de alguma forma estranhos", comenta. "Falam muito bem português, coseram muito bem a sua cultura com a nossa, adaptaram os nossos hábitos e fazem parte hoje da sociedade portuguesa."

"A comunidade ucraniana está tão bem integrada que não damos por ela. A sua característica principal é a invisibilidade."

E porque é que assim é? As explicações, aponta o diretor científico do Observatório das Migrações, têm a ver, por exemplo, com a sua formação superior. Também com a religião, que "é muito próxima da nossa". E, admite, com a cor da pele, por ser igual. "A diferença, infelizmente, em Portugal, por vezes, gera discriminação."

Pedro Góis vai mais longe: "Quando olhamos para os ucranianos como migrantes com uma integração mais fácil, compreendemos o que fizemos bem. E, quando olhamos para outros que vêm de origens um pouco mais estranhas para nós, percebemos o que temos de fazer."


V

"Às vezes, até me esqueço que estou do outro lado da Europa"



Aos sábados, a Escola Básica Pedro de Santarém, na Estrada de Benfica, muda de cores. O amarelo e o azul tomam conta dos corredores. Em vez de aulas, há "uroky". É nestas instalações que funciona, uma vez por semana, a escola ucraniana em Lisboa.

Aqui leciona-se o currículo de educação oficial ucraniano. Os alunos são todos crianças e jovens ucranianos que vivem em Portugal – por força da guerra ou não. Saem daqui com equivalência, em termos académicos, à educação dos estudantes que têm aulas na Ucrânia - e podem mesmo, terminada a escolaridade básica, candidatar-se ao ensino superior nas universidades ucranianas.

O projeto, explica o presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal, tem permitido, desde logo, que as crianças se mantenham conectadas com as suas raízes, ao aprenderem as mesmas coisas e ao sociabilizarem com outros meninos com as mesmas origens. "Para também não esquecerem de onde é que vieram, não esquecerem a sua História."

Por outro lado, tem facilitado também a integração no novo país, com o ensino da língua portuguesa, por exemplo. "Fui surpreendido porque crianças pequenas, do 3.º ano de escolaridade, já falam melhor do que eu em português. E eu estou cá há 25 anos", ri Pavlo Sadokha.

As aulas na escola ucraniana servem como complemento ao "Português Língua Não Materna", que aprendem na escola pública portuguesa. Em apenas dois anos, o número de alunos matriculados na disciplina mais do que duplicou, passando para cerca de 14 mil (mesmo assim, a oferta não chega à maioria dos estudantes estrangeiros que dela necessitam). A tendência é acentuada também no ensino da língua aos adultos. O número de estrangeiros adultos a aprender português mais do que triplicou em quatro anos. Eram, em 2024, mais de 45 mil . E os ucranianos estão entre os que mais frequentam estas aulas (chamadas de "Português Língua de Acolhimento").

Durante a semana, Larysa frequenta estas aulas no Instituto do Emprego e Formação Profissional. Aos sábados, vem com os filhos para a escola ucraniana. Procurou-a porque estava a ser difícil para as crianças estudarem as lições ucranianas online ao mesmo tempo que frequentam a escola em Portugal.

"Por causa da diferença horária, tinham de se levantar às 5h00 para o ensino online", nota. Agora vêm para a escola ucraniana com gosto. "Esperam todas as semanas pelo sábado como se fosse dia de feriado."

Com os filhos a estudar na escola ucraniana, Larysa tentou a própria sorte e perguntou se não havia emprego para ela na escola, a dar aulas. Responderam-lhe que sim. Começou a ensinar o 1.º ano de escolaridade. Agora a turma já vai no 3.º ano. É, para Larysa, um trabalho que, além de fonte de rendimento, serve também como fonte de paz de espírito. "Às vezes, durante as aulas, até me esqueço de que estou do outro lado da Europa e não na Ucrânia."

Ainda assim, não é sem esforço que Larysa e os filhos aqui chegam a Benfica, todas as semanas, vindos da Margem Sul. "Acordamos às 6h00. Temos de apanhar primeiro o autocarro e depois o comboio para Lisboa. E voltamos para casa muito tarde, à noite."

Depois de saírem do albergue, cedido pela câmara municipal de Almada, conseguiram uma casa. Viveram lá durante ano e meio, com o Estado a suportar parte da renda, ao abrigo do programa "Porta de Entrada". Mas, entretanto, a forte ajuda inicial foi desaparecendo. O apoio do programa terminaria e Larysa teria de passar a arrendar uma casa pelos próprios meios. Agora, vive com os dois filhos num apartamento na Amora, concelho do Seixal.

"Pago 650 euros por mês, mais as despesas de serviços", revela. "Eu mesma tive de encontrar a casa, ninguém nos ajudou a encontrá-la."

Larysa diz que ainda recebe assistência social, mas, mesmo com o emprego de professora na escola, o dinheiro não é suficiente para pagar a renda. "Tento ganhar algum dinheiro extra ajudando outros ucranianos, outras pessoas, na cozinha e na limpeza de casas."

"Estou a construir a minha vida aqui. Entendo que preciso de viver e criar os meus filhos aqui onde estou", resume. Uma nova vida erguida à força e sob um sentido de urgência. "Em breve, eles vão fazer 14 anos. Estou muito preocupada porque, assim que forem maiores de idade, já vão ficar inscritos no registo militar. E eu não quero mesmo que o meu filho lute."

"Assim que forem maiores de idade, ficam inscritos no registo militar.
E eu não quero que o meu filho lute."

Larysa confessa que vive diariamente ligada ao Telegram, para saber o que se passa em casa. Perpetuamente à espera de boas notícias que teimam em não chegar. "Quase sempre há alguma má notícia. Frequentemente, há explosões em toda a Ucrânia. E as pessoas morrem. Há muitas vítimas. Muita gente perde tudo o que tem. E dói muito", lamenta.

A ilusão do tempo

O diretor do Observatório das Migrações sustenta que, como Larysa, quem migra fugindo da guerra "não são imigrantes como os outros". "São imigrantes ainda com uma ligação muito forte à sua realidade local, aponta. "É um dado interessante, porque é novo. Nunca nos tinha acontecido."

Reagem a "um mundo hostil que não procuraram" e a permanência em Portugal era uma situação que olhavam como "passageira".

"Estes últimos tempos mostram-nos que, se calhar, há aqui algo de ilusório na temporalidade desta migração e que ela pode, de facto, tornar-se bastante mais longa ou mesmo permanente", repara Pedro Góis.

"Tenho de ficar aqui, para segurança dos meus filhos", Larysa suspira. "Não posso fazer planos. Não sei quanto tempo a guerra vai durar e quando será finalmente possível viver lá em paz."

"Não posso fazer planos. Não sei quanto tempo a guerra vai durar"

A crença do presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal é que "a maioria dos refugiados que vieram para cá vai continuar" a viver no país.

"Esta guerra, mesmo com um cenário de cessar-fogo, não termina tão prestes. Enquanto não muda o regime totalitário na Ucrânia, enquanto a elite russa - que está representada por Putin e outra elite política - não deixar de olhar para a Ucrânia como terra sua, de querer expulsar os ucranianos e controlar a Ucrânia, vão passar muitos anos. E o regresso dos ucranianos para a Ucrânia não será tão fácil", declara Pavlo Sadokha.

Mesmo quando o conflito terminar, atira, o que restará é uma "Ucrânia destruída". "Temos de criar uma nova geração de ucranianos que já não vai viver de guerra. (...) Os jovens ucranianos que estão a estudar em Portugal têm essas projeções: um dia ainda regressar e reconstruir a sua terra, a terra onde eles nasceram."

"A guerra não é dor dos ucranianos que estão na Ucrânia, é dor de todos."


VI

Enfim, paz. Um dia



Assim que a guerra irrompeu, os ucranianos que já estavam em Portugal reuniram-se e rapidamente coordenaram uma resposta conjunta. Trataram de doações monetárias, de alimentos, de colchões, de alojamento, para quem fugia do país.

"Esta guerra uniu-nos. Temos cá ucranianos com diferentes possibilidades económicas, diferentes níveis de educação, diferentes histórias, mas todos nos sentimos ucranianos que têm de sobreviver a esta guerra", afirma Pavlo Sadokha.

Mykola Shymonyak foi à fronteira da Ucrânia buscar outros ucranianos. Trazer a própria mãe. Tirá-la do território em chamas. "Cinco dias após o início da invasão, ela já estava aqui comigo", conta. Esteve em Portugal até outubro desse ano. Depois, quis ir embora. Regressar ao seu país.

"Ela vai fazer agora 65 anos. Já combinámos e vamos encontrar-nos lá na fronteira", adianta Mykola. Deixa escapar as palavras, mas não acredita nelas: "Pode ser que, até lá, haja paz."

"Como é que vai ser resolvido? Das últimas notícias eu não estou a gostar muito", admite. "Se a decisão era esta, devia ter sido tomada logo ao início. Não depois de morrerem 200 mil ou 300 mil pessoas."

"Se nós fizermos esse acordo de paz, não vai ser um acordo de paz. Vai ser um cessar-fogo durante, sei lá, cinco anos e a Rússia vai atacar outra vez", prevê.

"Nós somos muito pequeninos para decidir coisas grandes. Eles, que são grandes, decidem coisas pequenas."

Mas porque por algum motivo os clichés têm razão de existir, apesar de toda a descrença, a esperança de Mykola não morre. Nunca. "O futuro é... Ucrânia, paz, grande", diz.

"A Ucrânia é bonita. Um dia, quem tiver oportunidade, tem de ir lá visitar. Agora não sei... Mas acho que sim, acho que vai voltar a ser. Um dia."