ESPECIAL: FICA NA MINHA TERRA
Era uma vez num gigante africano
A Comunidade Angolana em Portugal
São a terceira comunidade imigrante mais representativa em Portugal. Em apenas cinco anos, os angolanos residentes no país mais do que quintuplicaram. O desapontamento com a situação sócio-económica e política angolana tem levado muitos a procurarem futuro, seja emprego ou formação superior, em território português. Um salto facilitado pela partilha da língua e pelo passado colonial. Ao mesmo tempo, contribuem para o rejuvenescimento de um país que é dos mais envelhecidos da União Europeia e do mundo. Simbiose ou a História em movimento: estas são as histórias de quem trocou um gigante africano pelo pequeno Portugal.
I
O "sonho" de Portugal
Isabel Veríssimo está sentada nas escadas do Metro do Rato, em Lisboa. A olhar para as pessoas que as sobem e descem. A observar quem passa. É assim que gasta o domingo. O único dia de folga que tem. Não sabe para que outro sítio pode ir. Acaba de chegar à cidade. Acaba de chegar ao país. Veio de Angola para ser empregada interna na casa de uma família. Não conhece mais ninguém a não ser os patrões. Ao final do dia, depois de examinar todos os transeuntes, regressa à casa onde trabalha, ao quarto que lhe foi destinado. E chora. Sente-se muito sozinha. Está muito sozinha.
Corre o final do ano de 1998. Lisboa acaba de viver a loucura da Expo. Da excitação, do ânimo, da esperança no futuro. Um espírito que fervilha e que transborda. Mesmo para fora de fronteiras.
"Em ‘98, era o sonho de toda a gente vir para Portugal", afirma Isabel, hoje com 52 anos.
Angola atravessava uma guerra civil e a possibilidade de emigrar para Portugal surgia como um escape muito desejado para muitos jovens angolanos.
"Primeiro começaram os rapazes", recorda Isabel. "Mesmo sabendo que vinham para trabalhar nas obras."
Lá não havia assim tanto emprego. E, depois, o que iam ganhar não tinha nada a ver com o que pagavam cá", explica.
Vinham, como diz Isabel, à procura de um "sonho". O sonho de Portugal. O sonho da Europa.
"Ouviam que as pessoas que estavam cá desde os anos 80 ganhavam muito bem e conseguiam mandar dinheiro para as famílias lá. Que conseguiam estar cá, ao longo de alguns anos, e comprar casa. Que conseguiam viver bem. E muitos, depois de estarem aqui em Portugal, conseguiam ir para outros países da Europa. Era um sonho", reforça.
Bento Monteiro, presidente da Casa de Angola em Coimbra e autor de uma tese sobre "Imigração em Portugal e a comunidade angolana", identifica esta onda migratória de Angola para Portugal que aconteceu durante os anos 90.
"Começou em 1992, aquando das eleições e depois do regresso à guerra", esclarece. Refere-se às primeiras eleições gerais em Angola, que opôs o MPLA, de José Eduardo dos Santos, à UNITA, de Jonas Savimbi. O povo angolano apareceu em peso para votar - a participação eleitoral foi superior a 91% -, numa altura em que a divisão política no país era gritante (e sustentada pelos blocos do Leste e do Ocidente, durante a Guerra Fria).
O MPLA seria declarado vencedor, um resultado contestado pela UNITA, que o considerou fraudulento. A disputa eleitoral levou a que eclodissem hostilidades entre as duas partes, primeiro na capital Luanda e depois noutras zonas do país. O momento deu origem ao episódio do Massacre do Dia das Bruxas, em que morreram pelo menos 10 mil pessoas.
Um capítulo sangrento da História de Angola e que marcou a vinda de muitos imigrantes para território português, já depois de uma primeira vaga, logo em 1976, após a independência angolana.
Foi um país em guerra que Isabel deixou para trás quando fez as malas e partiu. Mas deixou muito mais do que isso. O "sonho" de que fala era, para ela, o de dar uma vida melhor aos filhos. De ajudar o marido. De sustentar a mãe e os irmãos que tinha a seu cargo. Para fazê-lo, apanhou o avião e veio para Lisboa. Sozinha. E chorou.
II
Estudar fora de portas
A postura e o tom formais não denunciam os 21 anos de Anderson Muxiri. Está vestido a rigor. Camisa branca, gravata preta, colete a condizer, e a mítica capa negra. O tradicional traje académico. Representa a essência da cidade onde estuda, a cidade que o acolheu. Está no terceiro ano do curso de Direito na Universidade de Coimbra. Mas as suas origens estão a mais de 8600 quilómetros de distância.
Foi um dos estudantes com a nota média final mais alta no final do ensino secundário em Angola. O excelente aproveitamento escolar valeu-lhe uma bolsa do governo angolano para vir fazer o ensino superior em Portugal. Chegou ao país em novembro de 2023. Foi a primeira vez que saiu de Angola.
"Nem sequer foi para um passeio, nem algo assim. Foi logo já para viver cá!", conta.
Aos estudantes com melhores notas, o governo angolano ajuda a financiar a formação nos cursos que correspondem a áreas que entende serem "prioritárias" para o país. Como Direito, no caso de Anderson, mas também Engenharia e Saúde. "As últimas bolsas atribuídas têm sido mais nessas áreas."
Os acordos políticos para o ensino superior entre os dois países são um dos principais motivos para a atual migração angolana para Portugal, de acordo com os investigadores que se têm debruçado sobre esta tendência migratória.
Os dados corroboram: o número de estudantes universitários internacionais em Portugal aumentou mais de cinco vezes nas últimas duas décadas (passou de 12.700 em 2000/2001 para 65.900 em 2021/2022, segundo dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência). A maioria, cerca de 60%, vem da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e Angola é uma das três nações mais representativas.
Antes ainda dos acordos políticos que fomentam esta vinda de estudantes angolanos para território português, estão as ligações pós-coloniais e a ausência de barreira linguística entre os dois países.
"Existe uma relação histórica entre Portugal e Angola. Partilha-se uma cultura comum, uma língua, e temos certos valores em comum", repara Ayrton Pahula, presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal. "Isso faz com que o processo formativo seja mais fácil e faz os estudantes pensarem em Portugal como o primeiro destino."
"Portugal é o destino privilegiado. Por questões da língua, por questões da cultura, por questões da História", confirma o presidente da Casa de Angola em Coimbra, Bento Monteiro. "Temos outros, como o Brasil. Depois também temos os países ali à volta que fazem fronteira com Angola - as migrações internas em África são um ato comum. Mas, para a Europa, Portugal é sempre o país que nós preferimos."
Anderson Muxiri afirma que a adaptação a Portugal e ao ensino superior português foi "mais fácil do que previa". Conta que passa a maior parte do tempo na faculdade e que regressa a casa, por vezes, "só mesmo à noitinha". "Se não estivermos em aula, estamos na biblioteca", nota.
Vive numa residência, com outros estudantes, vindos de vários pontos do país e do globo. Partilha o "lar" com um português e com um moçambicano. Fala na "interação intercultural", na "troca de experiências", como um dos pontos mais enriquecedores do que é ser um estudante internacional.
Tem-se dedicado também ao associativismo estudantil. Participa, inclusive, num projeto da Câmara de Coimbra para promover o desenvolvimento turístico da região e que visa, por exemplo, aumentar as competências dos trabalhadores imigrantes no setor do turismo.
Nos tempos livres, faz ainda parte de um grupo coral africano - que junta a comunidade católica de Coimbra composta por imigrantes não só de Angola, mas também de outros países africanos, desde Cabo Verde à Guiné Bissau - a Pastoral Africana de Coimbra. "A Igreja faz parte daquilo que é a minha rotina", explica.
Uma rotina que procura manter, de alguma forma, apesar de estar longe de casa, num país diferente. Deixar Angola foi, para Anderson Muxiri, "um misto de emoções".
Se a família recebeu com grande "satisfação" a notícia de que tinha conseguido uma bolsa de estudo, a separação trouxe também alguma "tristeza". Para ambos os lados. "Era alguém que estava muito apegado à mãe, à irmã… Elas também estão a ajustar-se a isso", admite Anderson.
Afirma que veio para Portugal porque "queria sair da zona de conforto" e sabia que, além de um desafio, estudar fora de casa seria uma "mais-valia". Sobretudo numa "instituição de renome", refere, como a Universidade de Coimbra.
"É importante enfatizar que o ensino em Portugal é de qualidade", sublinha Ayrton Pahula. "E partilhamos muitas coisas. Imaginemos: para o curso de Direito, o ordenamento jurídico angolano é muito semelhante ao ordenamento jurídico português; na questão da Economia, temos muitas empresas de engenharia portuguesas a atuar em Angola", aponta.
O presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal admite que, caso não estejam abrangidos por uma bolsa de estudos, como é o caso de Anderson Muxiri, os custos de trocar de continente para tirar um curso superior são muito elevados. "Não é barato", assume. E, por isso, "a maior parte desses estudantes que vêm para cá são de classe média, média alta".
Ainda por cima, reconhece Ayrton Pahula, quando Angola "é um país com uma simetria regional significativa" - o que, na prática, significa que "os estudantes provenientes da capital têm maior probabilidade, ou mais possibilidades, de saírem do país para frequentarem o ensino superior no estrangeiro."
Não são todos, claro, apressa-se a dizer. Ele próprio, o presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal, vem do Cunene, a província mais a sul do país.
E há também estudantes que não pertencem a qualquer elite e que vêm, com esforço próprio, à procura de obter essa formação superior.
"Temos estudantes de classe baixa que, com ousadia, com coragem, decidiram deixar o país para prosseguirem os seus estudos. E muitos desses estudantes chegam cá, frequentam o ensino superior e, ao mesmo tempo, entram no mercado de trabalho. Trabalham e estudam ao mesmo tempo", exalta Ayrton Pahula.
"Infelizmente", aponta, "são esses estudantes que têm mais dificuldades em terminar o curso e também os que mais abandonam" o ensino superior. "Ainda há esta desigualdade em termos de acesso.".
A atual situação económica de Angola tem sido um motor para a migração no caso desses jovens estudantes.
Embora tenha havido algum progresso no último ano, a taxa de desemprego em Angola continua perto dos 30% (em Portugal, em comparação, ronda os 6%). São cerca de 5 milhões de desempregados, sobretudo jovens, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística de Angola.
O presidente da Casa de Angola em Coimbra recorda que, de 2009 a 2016, Angola atravessava uma fase estável, de prosperidade, e que, nessa altura, a imigração angolana em Portugal até baixou. "Muita gente, muitos dos meus colegas, regressaram para Angola", rememora Bento Monteiro.
"Mas depois a crise económica começou a afetar o país e começámos outra vez a sair", constata."É tudo motivações económicas."
"Sabemos que a situação socioeconómica em Angola não é das melhores. Isso é inequívoco, é inegável", diz Ayrton Pahula. "Nenhum angolano, nesse momento, se sente feliz com a situação de desemprego, a situação da economia estática que vivemos. E os cidadãos têm todo o direito de virem para cá à procura de melhores condições de vida."
III
A mudança
"A vida lá era bastante complicada. Ainda hoje é." Isabel Veríssimo é a mais velha de oito irmãos. "Éramos muitos. Uma família grande." Cresceu com a responsabilidade de ajudar a criá-los. A mãe trabalhava em casa e "pegava roupas de pessoas conhecidas para passar ferro, para lavar, para poder ganhar algum dinheiro".
"Ela tinha de trabalhar nesses serviços que eram muito pesados. Levava cestos enormes na cabeça, fazia muitos quilómetros a pé", recorda Isabel. "Foi uma mulher muito sofrida."
O pai foi, durante muitos anos, militar. Oficial da Marinha. Mas acabaria por perder o emprego para a doença do alcoolismo. "Teve um problema com a bebida e desistiu do trabalho. Lá em Angola, diziam que desertou, porque já não apareceu no quartel", conta. "Perdeu os direitos todos que tinha."
Desde aí, a família começou a passar dificuldades. "Não diria que passámos fome. Mas foi muito complicado", admite Isabel. Conta que, "com qualquer coisinha", a mãe conseguia fazer uma sopa. "A gente saboreava aquela sopa como se tivesse muita coisa e, às vezes, era só água, arroz (...) e um bocadinho de chouriço. Depois, metia uma folha de hortelã, ela inventava ali, e ficávamos bem."
Outras vezes, a mãe "tinha de ir para casa dos clientes fazer as coisas lá e, quando lhe davam um prato de comida, ela dizia: "Não, não vou comer, vou levar para os meus filhos", recorda. "Coisa de mãe."
Para ajudar, Isabel começou a trabalhar ainda em adolescente. O que a obrigou a parar de estudar. "Tive que deixar a escola muito cedo, infelizmente. Foi difícil", relembra. "Fui trabalhar para uma loja de roupas, lá nós chamamos "fardo" - que são roupas usadas e preparadas para depois se venderem. Esse foi o meu primeiro emprego." De dia trabalhava na loja, à noite, num mercado de rua. "Vendíamos cerveja."
Aos 18 anos, engravidou do primeiro filho. O que tornou a situação familiar ainda mais complexa. O pai da criança não quis assumi-la. "Não se responsabilizou e eu tive de, com a ajuda da minha mãe, ser mãe e pai do meu filho."
Mas não demoraria até que a vida de Isabel desse uma volta. Primeiro, conheceria, no mercado onde trabalhava, o atual marido. E, depois, o destino plantaria no caminho desta angolana as sementes que a levariam a cruzar-se com o país a que acabaria por chamar "casa".
Conseguiu emprego num hotel em Luanda que era gerido por um português. O salário era melhor. Permitiu-lhe deixar o trabalho na loja de roupa, durante o dia, e no mercado, à noite. Contava também com as gorjetas dos clientes - na maioria, portugueses -, que guardava para ajudar a mãe.
Luanda nos anos 90 (Imagem: Scott Peterson/Liaison via Getty Images)
Estando grávida, teve, no hotel, acesso a cuidados médicos, que, de outra forma, não conseguiria. A gratidão manifesta-se na voz de Isabel, quando recorda essa altura.
"Fui muito bem tratada. Tive direito a tudo, tive direito a médico - coisa que o próprio país não fez por mim. Foi preciso um estrangeiro ir lá e olhar para a minha situação e dizer: "Tu tens direito a isso"", aponta.
Isabel conta que foi nesses tempos no hotel, em que convivia diariamente com cidadãos portugueses, dos patrões aos hóspedes, que a ligação a Portugal começou a surgir.
"Eu vivi tanto, trabalhei tanto ali no hotel, durante anos, que eu já me sentia como se estivesse em Portugal, de tanto conversar com os portugueses, de falarem de Portugal. Parecia que já conhecia a terra", afirma.
E não tardaria a que a sensação passasse a realidade. O hotel em Luanda acabaria por fechar. E do hotel português Isabel passou para a embaixada portuguesa na capital angolana. Foi lá que ficou, durante uns tempos, a trabalhar como empregada, "a limpar e a servir cafés".
"Eu já me sentia como se estivesse em Portugal.
Parecia que já conhecia a terra"
Isabel foi depois convidada para trabalhar na casa de um dos antigos hóspedes do hotel - que, eventualmente, regressaria a Portugal. E foi aí que surgiu o convite: estaria Isabel disposta a mudar de país e trabalhar como empregada interna numa casa em Lisboa?
Hesitou. A proposta era para ir sozinha. E Isabel tinha já, nesta altura, dois filhos pequenos. O mais velho, um rapaz, com seis anos, e a mais nova, uma menina, com apenas dois.
"Foi muito difícil ter de deixá-los com os meus pais. Muito difícil mesmo. Eram muito pequeninos, estavam naquela fase que precisavam muito, muito, mas muito, da mãe", desabafa.
Isabel encheu as malas de coragem e arrancou para o novo destino, sabendo que, com o emprego que conseguira em Portugal, os filhos teriam "uma boa cama" e "boas refeições".
Assim se viu em Lisboa, como empregada interna, na casa de uma família portuguesa. A adaptação a um novo país foi, por si, difícil, - à "alimentação diferente", ao "frio" ("porque nós em Angola achávamos que tínhamos frio, mas não tem rigorosamente nada a ver!", comenta).
"Era um país diferente, apesar de falarmos português, de eu conseguir percebê-los e eles a mim. Os hábitos, a maneira de estarem, a maneira de conviverem, a maneira de falarem… era bastante complicado", assume.
Mas o afastamento da família revelar-se-ia o mais difícil de tudo. "Pensar nos filhos, no marido, nos meus pais, nos meus irmãos,... Porque eu sempre cuidei deles."
"Foi uma adaptação muito complicada", lembra. "A minha filha tinha apenas dois aninhos. Eu sentia tanto quando ela falava por telefone comigo e perguntava: "Mãe, quando é que chegas? Quando é que me vens buscar? Quando é que eu vou ter contigo? Isso é de matar. Isso é de matar", conta.
"Foi tão difícil, tão difícil, que eu pensei assim: "Meu Deus, será que vai valer a pena ter que sacrificá-los?", confessa.
Onze meses depois, o sofrimento de Isabel seria aliviado… ainda que só parcialmente. Deixaria de estar completamente desamparada. O marido "fez um esforço e veio atrás de mim", conta. "Foi trabalhar nas obras."
Apesar de estarem ambos empregados, a trabalhar para patrões portugueses, viram-se indocumentados no país.
"Eu não sou daqui, não sei os direitos, não sei os deveres.
Se alguém não me explicar, é claro que eu não vou saber"
"Quando pediram o meu visto, foi apenas por 15 dias ou um mês", conta Isabel, já sem ser capaz de precisar.
"Eu não sou daqui, não sei os direitos, não sei os deveres. Se alguém não me explicar, é claro que eu não vou saber", admite. E muitas vezes, lamenta, faltou compreensão do lado dos serviços públicos. "Eu chego ali, completamente inocente, a fazer uma pergunta descabida. E havia pessoas assim rabugentas, que você perguntava uma coisinha de nada e te respondiam... Bem, a gente ficava assustada."
Para Isabel e o marido conseguirem tratar da documentação e tornarem-se cidadãos legalmente residentes em Portugal, explica, "foi muito complicado".
"Tínhamos de acordar muito cedo e irmos aos Anjos - na altura, era nos Anjos -, ficar na fila, no frio, na chuva, porque não havia condições", relata. "Eram filas imensas, filas enormes, mas a gente tinha de estar lá. O meu marido levantava-se às duas da manhã, para poder ter a senha."
Foi há quase três décadas. Mas o cenário descrito por Isabel Veríssimo poderia ser a abertura de qualquer jornal televisivo nos dias de hoje. As imagens são as mesmas. A história que conta é igual à de tantos imigrantes que procuram agora regularizar a sua situação no país.
Mark Rubens/Getty Images
IV
"Nem todas as portas estão abertas. Temos de as arrombar"
A barreira financeira pode ser a que mais bloqueia jovens angolanos comuns no projeto de vir estudar para Portugal. Desde logo, pelo valor da propina internacional. O valor pago pelos estudantes vindos de outros países é significativamente mais alto do que o que é pago pelos estudantes portugueses para frequentar um curso em Portugal - pode chegar a ser até dez vezes mais. Mas há vários outros fatores a atropelar o percurso de quem imigra para procurar formação superior.
Desde logo, a burocracia - por parte não de um, mas de dois Estados. "Primeiro, lutar para ter o passaporte", aponta Ayrton Pahula. "Começa logo ali."
"Depois, lutar para ter os diplomas ou certificados reconhecidos junto do Consulado Geral de Portugal em Luanda ou em Benguela e junto do Ministério das Relações Exteriores de Angola e do Ministério da Educação. E, depois disso tudo, também lutar com a emissão de visto junto da Embaixada de Portugal em Luanda", nota.
"Os vistos demoram muito para sair e isso dificulta muito os estudantes naquilo que é a sua integração", argumenta o presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal. Muitas vezes, quando os estudantes conseguem ter luz verde para viajar para o novo país, já o primeiro semestre está quase a acabar. Já perderam aulas, matéria e as atividades de integração na comunidade universitária.
"A falha começa no processo legislativo. Quando se cria muitos entraves. Tem de se desburocratizar"
Chegados a Portugal, os obstáculos para conseguirem a legalização continuam. "Mesmo tendo agendamento para se apresentarem a uma agência da AIMA, estes estudantes enfrentam dificuldades no sentido de conseguirem o número de Segurança Social, o cartão de utente, o NIF,...", menciona Ayrton Pahula. "É um processo muito demorado."
"A falha começa no processo legislativo. Quando se cria muitos entraves. Tem de haver uma revisão legislativa. O governo português tem de desburocratizar", apela.
A dificuldade que se segue é partilhada com milhares de jovens portugueses que se deslocam internamente para estudar numa universidade (e não só): encontrar alojamento. "É um problema genérico, não só dos estudantes", reconhece Ayrton Pahula.
Bento Monteiro, presidente da Casa de Angola em Coimbra, reforça-o: "É muito complicado. Quem tiver cá amigos vai dando um jeito, aqui e acolá. Mas é extremamente difícil para quem chega de novo, neste momento".
O presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal aponta como exemplos os estudantes que vêm para a capital portuguesa, Lisboa. "As casas disponíveis com preços acessíveis só estão noutros distritos", afirma. "A minha universidade é Lisboa, mas vou residir a duas horas de Lisboa? (...) Isso cria muitos constrangimentos para o sucesso académico."
Ayrton Pahula sabe-o porque o viveu na primeira pessoa. "Vim para cá sozinho. Sem a minha família, sem os meus pais, com a intenção de prosseguir o ensino superior. Não conhecia ninguém." Conta que só conseguiu casa fora do distrito, em Setúbal. Acordava de madrugada, às 5h00, para fazer o trajeto de transportes públicos até à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde estuda.
Foi o facto de sentir na pele as adversidades - e de ver outros estudantes angolanos a senti-las - que o levou à Associação de Estudantes Angolanos em Portugal. "Senti a necessidade de unir causas, para poder facilitar a vida dos nossos colegas que, como eu e como outros, chegaram aqui com inúmeras dificuldades", explica.
Na associação, procura ajudar os estudantes angolanos a terem uma "integração digna" na comunidade académica portuguesa. "A instalarem-se, a defenderem e a promoverem os seus direitos junto das universidades, a defenderem e a reivindicarem os seus direitos de legalização do território português. A reivindicarem os seus direitos sociais básicos."
V
As leis
(e o que está por trás delas)
Antes da última visita do presidente angolano a Portugal, em julho deste ano, João Lourenço admitiu "algum incómodo" com as novas leis de imigração portuguesas idealizadas pelo Governo de Luís Montenegro - e aprovadas na Assembleia da República com o apoio da maioria parlamentar de direita.
"Os portugueses emigraram para todo o mundo e o mínimo que a gente exige é que Portugal não trate os imigrantes que escolheram Portugal como um destino para fazerem suas vidas de forma pior a que foram tratados nos países que os acolheram ao longo dos anos", declarou, na altura, o presidente de Angola.
Em resposta, o primeiro-ministro português prometeu criar "condições preferenciais" para angolanos que queiram trabalhar em Portugal.
Ainda assim, as alterações à lei de estrangeiros e à lei de nacionalidade vieram apertar os requisitos para a entrada e permanência de imigrantes em Portugal, assim como para a obtenção da cidadania portuguesa. E os cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) não foram poupados. Por exemplo, o tempo de residência requerido a estes cidadãos para pedir a nacionalidade portuguesa passará de cinco para sete anos.
Regras mais apertadas, que respondem às perceções e expectativas de um crescente número de portugueses sobre a imigração. De acordo com o último barómetro da Fundação Francisco Manuel dos Santos, mais de 75% dos inquiridos afirmam que Portugal devia ter uma entrada mais regulada ou dificultada de imigrantes no país.
"O cidadão comum não sente a CPLP.
Não sabemos para que é que existe. Não sentimos benefícios"
"Concordo que é preciso regular a imigração", refere o presidente da Casa de Angola em Coimbra. "Um país democrático como Portugal é um país organizado. Não podemos continuar a receber pessoas sem ter condições para dar a essas pessoas."
No entanto, quando são cidadãos da CPLP que estão em causa, considera que "as coisas podiam ser muito mais fáceis".
"O cidadão comum não sente a CPLP. Não sabemos para que é que existe a CPLP. Não sentimos esses benefícios. E isso não é uma crítica para Portugal, é uma crítica para todos os países que fazem parte", aponta Bento Monteiro.
"A CPLP existe para aproximar os povos. Até deveria haver uma via verde para a CPLP", defende.
Também os estudantes angolanos não têm visto com "bons olhos" as alterações à legislação."Não só prejudicam a comunidade académica africana ou a comunidade académica estrangeira, como também dificultam em si a evolução do ensino superior em Portugal", diz Ayrton Pahula.
O presidente da Associação de Estudantes Angolanos nota que Portugal tem universidades "no ranking das melhores do mundo" e afirma que "é graças aos estudantes estrangeiros que Portugal está nesta posição".
"Porque um dos critérios para identificar uma universidade como sendo de destaque a nível mundial é o número de estudantes estrangeiros. Se o número de estudantes estrangeiros reduzir significativamente, isso também prejudica Portugal", aponta.
Ayrton Pahula reforça que os estudantes angolanos vêm "com boas intenções" e desmonta algumas ideias que crê que circulam sobre estes jovens africanos.
"Penso que tem havido uma certa mistura das intenções das pessoas que vieram para Portugal. O que temos assistido na lei de estrangeiros é um bocado isso. Às vezes, pensa-se que o estudante que vem para cá para estudar é o que vem para cá para cometer crimes, é o que vem para cá para abusar, realizar fraudes à economia portuguesa, fraudes fiscais e por aí fora. Não. Nada disso", declara. "Os números estão aí e não mentem. Essa comunidade tem mais contribuído do que destruído", alega. "Então isso tem-nos deixado muito tristes."
Racismo e discriminação
A desconfiança em relação ao que vem de fora pode, como apontam os barómetros científicos - e também os eleitorais - estar a aumentar, mas o presidente da Casa de Angola em Coimbra sabe que o fenómeno não é, de todo, novo. Bento Monteiro não tem receio de chamar o problema pelo nome.
"Racismo sempre houve", afirma. "Tem a ver com a própria cultura portuguesa. Tem a ver também com a descolonização, a forma como foi feita. Tem a ver com as mensagens ou com a educação que muito do cidadão comum recebeu."
Isabel Veríssimo afirma que teve de "engolir muito preconceito". "Tive de engolir preconceito dentro dos transportes públicos, tive de engolir preconceito dentro do ginásio onde eu levava os meninos, tive de engolir preconceito dentro do talho,..." Episódios que não esquece.
"Estava no talho, uma vez, na rua onde eu trabalhava. A imagem, e o som, não me sai da cabeça até hoje. Eu estava lá à espera da minha vez, enquanto [o talhante] estava a atender a outra pessoa. E esta pessoa que estava a ser atendida perguntou: "Vocês estão abertos ao sábado?" E ele diz: "Não, não estamos abertos. Não trabalhamos ao sábado. Isso é para os imigrantes", relata.
"Olhou para mim e fez esse comentário. Ele conhecia-me, sabia que eu morava ali com os patrões e que eu era empregada. Que eu só tinha folga ao domingo", frisa.
De acordo com o último Eurobarómetro sobre Discriminação, 60% dos portugueses acreditam que a descriminação com base na origem étnica e na cor da pele em Portugal é generalizada.
Anderson Muxiri não nega a existência de situações de discriminação, em meio académico, em relação a estudantes imigrantes. "Estaria a mentir se não admitisse que situações do género acontecem em Portugal", diz.
"Felizmente, nunca passei por isso", ressalva, defendendo que o "importante" é "reportar para as autoridades competentes". "Nós, deste lado, o que esperamos é um tratamento devido das autoridades competentes a casos do género", acrescenta.
"Nas nossas identificações, quando a gente nasce, não está lá ‘preto’"
"O que me choca, às vezes, é quando as pessoas dizem: "Oh, sua preta, vai lá para a sua terra". Isso já aconteceu no autocarro", relata Isabel.
"Não me preocupo nada se as pessoas me chamarem de preta. (...) Mas uma coisa é certa: nas nossas identificações, quando a gente nasce, não está lá ‘preto’."
"É comum as pessoas queixarem-se da discriminação, da xenofobia." Mas recentemente, sublinha o presidente da Casa de Angola em Coimbra, "as coisas acentuaram-se muito mais".
"Agravaram-se, nos últimos anos. Com a presença de partidos que não interessa dizer o nome, isso veio mais ao lume", alega. "As coisas pioram porque muita gente sai da gaveta."
Em 2021, foi aprovado pelo então governo o primeiro Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação, que deveria ser implementado até ao final de 2025. Mas, no início deste ano, os dados disponíveis mostravam que tinha sofrido um "travão a fundo".
Sob alçada da Presidência do Conselho de Ministros, o plano tinha, no final de dezembro de 2023, apenas 16% de medidas executadas. Depois disso, não foram fornecidos mais dados – não se sabe se por não existirem ou se porque, de facto, não houve mais medidas executadas.
"Eu queria muito que não sofrêssemos muito por sermos imigrantes. Às vezes ouve-se dizer: "Esses imigrantes vêm aqui para tirar o trabalho dos portugueses, os imigrantes vêm aqui para tirar as ajudas que davam aos portugueses"", diz Isabel Veríssimo. "Não é verdade. Há lugar para todos."
"Se a gente fizer uma ronda, às cinco da manhã, no autocarro, nos transportes públicos - seja dia de semana, seja ao sábado ou seja feriado -, é gente africana, brasileiros também, mas muita gente africana que vê. De Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné,...", nota.
"Mulheres e homens - mas muito mais mulheres - que estão acordadas às quatro da manhã e às cinco da manhã estão no autocarro da madrugada, a irem trabalhar, limparem escritórios, limparem garagens, limparem o que for. E terminam às nove da manhã e vão para outros trabalhos", repara.
"Era muito bom que respeitassem essas mulheres. Era muito bom que as pessoas tivessem consciência de que, quando a gente acorda e encontramos a rua limpa, não é que a rua se tenha limpado sozinha."
VI
Regressar ou não regressar:
é uma questão?
Hoje, Isabel Veríssimo já não é empregada interna. Já não vive num quarto em casa dos patrões. Já não está sozinha. Não chora. Trocou as lides domésticas pela "arte" dos gelados. "Para mim, é uma arte", diz, com um grande sorriso. Trabalha, há 13 anos, numa famosa gelataria. É ela mesma quem faz os gelados. À mão.
"A fruta vem fresca, a gente trata a fruta - porque é tudo manual mesmo! Depois, tem a outra parte, onde se faz as bases, que são as partes líquidas, para fazer a transformação. Outra colega transforma a fruta em polpas, para poder fazer o gelado, e outra está na parte dos complementos, do cheesecake, da tarte de limão,...", explica, com o amor pelo ofício a transbordar a cada palavra. "Eu amo o que faço."
Todos os dias, Isabel apanha o histórico elétrico 28 para fazer o trajeto de casa até à gelataria e depois de volta a casa. Mora no bairro de Alfama, em Lisboa. Vive na casa dela. Com o marido e com os filhos - os dois mais novos, um com 15 anos e outro com 19, já nascidos em Portugal.
Isabel construiu o seu lar, a sua vida, aqui. E, ao fazê-lo, ajudou o país a combater uma pesada crise demográfica. Duplamente. Primeiro, com a migração para Portugal. Depois, como tantas outras mães de origem estrangeira, ao ter os seus filhos neste país.
Na década passada, os saldos migratórios negativos tiveram consequências no declínio populacional em Portugal. Desde 2019 que essa tendência se inverteu e o país voltou a ter um saldo total positivo. Em 2024, a população em Portugal cresceu pelo sexto ano consecutivo, superando os 10,7 milhões.
Ainda assim, Portugal é (a par de Itália) a nação mais envelhecida da União Europeia e tem-se mantido no top 5 dos países mais envelhecidos do mundo. O saldo natural negativo (com mais mortes do que nascimentos a acontecerem) está, nesta altura, a ser contrariado, sobretudo, pelos partos de bebés de pais imigrantes.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2024, um terço dos 84.642 bebés nascidos em Portugal eram filhos de mães estrangeiras. E as mães angolanas estão entre as que mais contribuem para os números.
Mas, sejam angolanas ou portuguesas, as mães que vivem em Portugal não estão a conseguir evitar que os próprios filhos deixem o país. Portugal é o quinto país da União Europeia com maior proporção da sua população emigrada. E a emigração jovem, em particular, está em alta. De acordo com o Observatório da Emigração, cerca de 30% dos jovens nascidos em Portugal, com idades compreendidas entre os 15 e os 39 anos, deixaram o país.
Assim fizeram os dois filhos mais velhos de Isabel. "Não vivem cá em Portugal, devido à situação que não está fácil para os jovens", explica. Um está na Suécia, a outra no Reino Unido.
"Agora, apesar de serem portugueses, também são imigrantes novamente", diz. Tal como a mãe, quando veio de Angola para Portugal, foram em busca de uma vida melhor num novo país. "Hoje eu sinto que sou uma mulher forte, passei por tudo isso, e consigo transmitir isso aos meus filhos. Porque eles Então, é dar essa força e dizer para eles não desistirem. É só cumprirem com as regras do país que os acolheu."
Anderson vai continuar os estudos até ao mestrado e sair de Portugal como jurista, mas ainda não sabe o que quer fazer profissionalmente. Sabe, contudo, que quer regressar a Angola e contribuir para o seu país.
"A minha vinda para cá faz parte de um programa de formação financiado pelo próprio governo angolano", lembra. "Então, eu até, por vezes, em tom de brincadeira, digo que estou cá a cumprir uma missão: a missão de formar-me e depois regressar para o meu país e dar o meu contributo para o desenvolvimento da nação."
A escolha, como a de Anderson, de regressar ao país de origem não tem sido a da maioria dos jovens angolanos que se formam em território português. O presidente da Associação de Estudantes Angolanos em Portugal afirma que "a tendência tem sido de permanecer".
"É natural", comenta Ayrton Pahula. "As pessoas querem residir onde lhes oferecem melhores condições de vida e de bem-estar. Se os estudantes consideram que em Portugal têm um melhor salário, têm maior dignidade, emprego, eles vão permanecer."
"Temos muitos estudantes africanos a trabalharem nos bancos, nas empresas de transporte em Portugal, na administração pública, nas autarquias", refere.
Ayrton Pahula é também "do grupo dos que pretendem regressar". "Não julgo os meus colegas que fazem parte do grupo que pretende permanecer. Não julgo"; assegura. "Muitos destes também contribuem para aquilo que é o desenvolvimento da Angola. Desde o momento em que enviam remessas, também estão a ajudar a economia nacional", nota.
Anderson Muxiri tenciona regressar a Angola e contribuir para o desenvolvimento do país
"Todos nós contribuímos, quer os que vêm, quer os que regressam, para o desenvolvimento daquele gigante do continente africano que se chama Angola."
Um gigante para o qual Isabel Veríssimo, depois de 27 anos em Portugal, não conta voltar. Hoje, já com nacionalidade portuguesa, sente que o seu país agora é aqui. "Não tenciono sair", assegura.
"Eu adoro, eu amo esse país", declara. "Amo o tempo, as pessoas, a comida,... tudo. Tem muita luz, tem muita gente querida, muita mesmo."
"Fui muito bem tratada aqui, mais do que no meu próprio país. Eu tive muito mais direitos aqui", conclui. "E, por isso, estou muito, mas muito, grata".








